Símbolo cultural da Bahia e uma das peças fundamentais da Lavagem do Bonfim, as baianas são identificadas de longe. Com suas vestimentas engomadas, torços e colares, carregando seus jarros com flores e água de cheiro (mistura de água, flores e folhas) na cabeça ou nos braços, embelezam ainda mais os 8km de percurso, que vai da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia (no Comércio) até a Colina Sagrada (no Bonfim), com simpatia e sorriso inconfundíveis.

Responsáveis pela tradicional lavagem das escadas da Colina Sagrada, como forma de purificar a igreja e também os populares que foram à festa, um dos momentos mais aguardados da lavagem, as Baianas se juntam ao tapete branco formado por milhares de fiéis para agradecer, renovar a fé e reverenciar Oxalá, Senhor do Bonfim no Candomblé.

Com 67 anos de vida, sendo 33 deles participando da caminhada do Bonfim, a baiana Eunice Araújo, com sua empolgação e entusiasmo, parecia estar participando pela primeira vez dos festejos. Para Eunice, o misticismo presente na lavagem é uma das coisas mais lindas, já que na ocasião representantes de várias religiões se unem sem questionar a religião do outro. Devota de Oxalá e orgulhosa por participar do cortejo, ela faz questão de completar todo percurso todos os anos. “Eu sou tão abençoada por Oxalá, ele me concede tantas conquistas, e seguir do Comércio até o Bonfim é uma forma de agradecimento e renovação da minha fé. Não tem cansaço nem corpo mole. Tem é muita fé, disposição e gratidão”, declara.

Engana-se quem pensa que apenas baianas mais experientes participam do cortejo. A tradição e ensinamentos são passados de geração a geração, tornando cada vez mais forte o sincretismo religioso. Nascida e criada dentro de um terreiro de candomblé, Iasmin Barbosa, de 17 anos, desde criança acompanha a avó na lavagem. Há quatro anos, ela participa do cortejo como baiana e revela a emoção em fazer parte do festejo. “É uma sensação difícil de explicar, pois só quem participa vai entender o que eu estou falando. É algo único e esse momento significa muito para mim. É um sentimento de orgulho e gratidão. Até hoje só obtive vitórias, pedidos atendidos e metas alcançadas. Eu só tenho motivos para agradecer”.

A jovem baiana também destaca o clima da festa como um dos pontos altos, o que torna o festejo ainda mais bonito. “É um clima único de fé, união e respeito ao próximo. É a verdadeira sensação de que somos todos um. Que a gente possa levar isso para todos os dias da nossa vida para que possamos viver em paz e harmonia”, declara.

As baianas de outros municípios não ficaram de fora. É o caso de Elieuda dos Santos, 39, que veio pelo segundo ano consecutivo diretamente do município de Tanquinho, localizado em Feira de Santana, somente para participar do cortejo. Com lágrima nos olhos ela descreveu o momento. “Estou aqui como representante da minha religião, o candomblé, e o que me deixa mais emocionada é ver pessoas de várias religiões unidas com um único propósito, a paz. É uma sensação que não dá para descrever. É de arrepiar. É algo divino mesmo. Esse momento significa gratidão e fortaleza. Que Oxalá nos dê um ano de muito axé”, afirma

História – O culto ao Nosso Senhor do Bonfim começou em 1745, quando a imagem do santo foi trazida pelo capitão Português Teodósio Rodrigues de Farias, cumprindo uma promessa que fez depois de ter sobrevivido a uma forte tempestade. As homenagens, no entanto, iniciaram de fato em 1754, ano em que a imagem foi transferida da Igreja da Penha, em Itapagipe, para a sua própria igreja, construída na Colina Sagrada. Segundo relatos históricos, a lavagem do adro da Basílica começou a partir dos moradores da região, que lavavam a igreja para deixá-la pronta para a Festa do Bonfim. Por conta da dança durante o cortejo até a basílica, a limpeza foi proibida, em 1889, pelo arcebispo da Bahia Dom Luís Antônio dos Santos. Após a decisão, adeptos do candomblé começaram a fazer o cortejo para lavar as escadarias.

Foto: Bruno Concha

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