Segundo o IBGE (2018), 30,8 mil venezuelanos vivem atualmente no Brasil, 99% está em Roraima.

A recente e ainda continua onda de manifestações contra Nicolas Maduro (chame-o como quiser, de presidente ou ditador) leva os olhares do mundo para a Venezuela. Através das redes socais, imagens, áudios e vídeos dos protestos se espalham pela internet. Falamos sobre isso aqui e aqui.

No dia 23/01 os Estados Unidos, junto ao Brasil, a Colômbia entre outros, reconheceram Juan Guaidó como presidente de transição do governo Venezuelano, Trump inclusive adotou uma retórica agressiva ao se referir a Maduro. Para entender o que ocorre na Venezuela e região, o Ler Agora entrevistou dois venezuelanos e um ex-funcionário de Relações Internacionais do INEP Venezuela, que explicam as implicações humanitárias e os riscos politicos sobre uma possível desestabilização na América do Sul.

Hoje, 24/01, aproximadamente as 19h, em Washington, capital dos Estados Unidos, 16 membros da OEA ratificaram a autoridade constitucional da Assembleia Nacional da Venezuela e de Juan Guaidó, confira o tuíte do perfil oficial da OEA – Brasil.

 

O LADO HUMANITÁRIO

 

Rogério Cortez (nome fictício), jornalista situado em Caracas contou que as manifestações já ocorrem há algum tempo, mas só ontem 23/01 aumentaram de tamanho e atraíram milhares de pessoas. Enquanto se comunicava com o Ler Agora, pelo Twitter, as 23h do horário de Salvador, contou que, naquela noite não voltaria para casa, precisaria dormir no escritório da empresa, pois sair às ruas está muito perigoso “há sons de tiros e explosões”, completou.

Seu salário, atualmente gira em torno de 6 dólares mensais, mas por conta da hiperinflação deveria ganhar ao menos 450 dólares. Cortez contou que seus filhos estão no exterior e só não passa fome pois enviam dinheiro mensalmente, “mal consigo comprar carne, arroz e itens básicos, esse dinheiro precisa durar um mês inteiro, isso é um pesadelo”, relatou. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a inflação em 2019 será de 10.000.000%.

Quanto às manifestações, não há dados oficiais, mas segundo os relatos, nos dia 23/01, dezessete pessoas foram mortas em confrontos com a Guarda e Polícia Nacional Bolivariana, os feridos passam de 200, “Os protestos ocorrem pois os cidadãos não querem Maduro no poder, a miséria, mortes, fome e a delinquência transformaram um país rico numa nação de indigentes”. “Por isso muitos vão embora para as nações vizinhas, incluindo o Brasil”, completou.

Imagem ilustrativa

O Ler Agora apurou que, em sua conta no Twitter, o ministro de defesa venezuelano negou que há confrontos letais contra os manifestantes, no entanto, vídeos compartilhados nas redes sociais e o relato do jornalista Cortez mostram que há pessoas mortas em diversas cidades do país.

Os negócios no centro de Caracas viraram alvos de saqueadores, enquanto pessoas leais ao governo disparam livremente, “muitos cidadãos que estão indo do trabalho para casa ficam feridos, estamos vivendo num caos”, disse.

Segundo Cortez, Nicolás Maduro tem as forças armadas ao seu lado e não sairá do poder pacificamente, “o povo está brigando desarmado, é por isso que os mortos são só do lado da oposição”. Questionado sobre a cobertura da imprensa internacional, Cortez afirmou que a GN confiscou as câmeras e celulares dos fotógrafos que chegaram ao país.

Já Gutierrez Fernandes (nome fictício), atualmente mora na Espanha, contou que fugiu da Venezuela com o apoio da família, e para que não passem fome, envia dinheiro todos os meses, “minha família não pôde vir comigo, pois o custo é muito alto, mas me comunico com eles diariamente”. Além da fome também há venezuelanos que morrem por falta de medicamentos.

O vice-presidente do Brasil, Mourão, afirmou ontem que o país não participará de uma possível intervenção militar na Venezuela pois não faz parte da política externa brasileira. Segundo a Agência Brasil, ele disse “O máximo que podemos fazer é protestar, né?”.

Segundo a ONU, 2,3 milhões de venezuelanos deixaram o país nos últimos 4 anos, número maior que os 1,8 milhão de imigrantes que chegaram a Europa fugindo das guerras civis no oriente médio, em países como Síria e Jordânia.

Juan Guaidó pediu hoje, 24/01 ajuda humanitária aos Estados Unidos e demais países da América. Mike Pompeo, Secretário de Estado dos EUA, concordou em enviar 20 milhões de dólares a Venezuela.

O LADO POLÍTICO

 

Atualmente existem 3 motivos que podem levar a uma desestabilização na região da América do Sul. Segundo Felippe Ramos, Sociólogo e ex-funcionário do Ipea na Venezuela, o primeiro motivo se daria pela fronteira com a Colômbia, por ser uma região com alta densidade populacional, “há um conflito histórico e com a deterioração da situação venezuelana, Maduro pode culpar o governo colombiano e escalar o conflito”.

Já o segundo conflito, na fronteira com a Guiana poderia ocorrer pois, “a Venezuela reclama o território como dela desde o século 19, há o interesse pelas fontes de petróleo da região tanto por parte de Maduro quando dos Estados Unidos”, explica.

A terceira área de risco é na fronteira brasileira, em Roraima, ao sul da Venezuela, “o aumento da imigração venezuelana para o norte do Brasil desestabiliza as pequenas cidades do estado de Roraima, incluindo a capital Boa Vista. Sendo assim as três fronteiras tem risco de conflitos diplomáticos, e por conta dos refugiados”, completa.

O risco de uma guerra, apesar de pequeno é possível, “a depender da escalada dos conflitos, isso não está descartado. Há as declarações do Bolsonaro e Ivan Duque (presidente da Colômbia) sobre possíveis intervenções militares”, disse Ramos.

Questionado pelo Ler Agora sobre os potenciais impactos das declarações diplomáticas que reconhecem Juan Guaidó como presidente interino, Ramos afirmou que aumentam o isolamento da Venezuela no mundo, e fortalece a Assembleia Nacional, mas, “é uma pressão diplomática de poucos efeitos práticos, pois o que interessa é o controle das instituições, recursos financeiros e militares, Maduro ainda detêm esses mecanismos”.

Dentre os países que apoiam a Venezuela está a Bolívia, que faz jogo diplomático para apoiar Maduro, mas ao mesmo tempo não quer enfrentar o governo Bolsonaro por depender das exportações de gás para o Brasil. Quando o assunto envolve países de outras regiões “temos as potências China e Rússia, mas que tem poucas condições reais de interferir diretamente (militarmente) em prol do Maduro”, explicou Ramos.

Questionado sobre quais ações o Brasil poderia tomar, Ramos disse que por conta da Venezuela estar suspensa do Mercosul e haver poucos acordos comerciais entre os países, o máximo que o Brasil faria é acolher refugiados políticos e dar apoio humanitário.

DIPLOMATAS AMERICANOS NA VENEZUELA

 

Para Ramos, é improvável que Maduro quebre a Convenção de Genebra e os tratados internacionais, o máximo que acontecerá é a expulsão dos diplomatas por meios constitucionais, “Se houvesse um ataque aos funcionários americanos, os Estados Unidos teriam legitimidade para intervir militarmente como forma de defender seus funcionários federais”, completa.

Maduro aperta a mão de Putin

O LADO RUSSO E CHINÊS

 

O interesse da Rússia se dá pois a Venezuela é um grande consumidor de produtos russos, armamentos militares como fuzis Kalashinikov e caças Sukhoi, “a Rússia tem poucos clientes por causa do embargo americano, isso aumenta o interesse na Venezuela, há também a cooperação entre as as petroleiras estatais dos países. Já a China tem interesse por ser credora da Venezuela e receber petróleo em troca dos empréstimos realizados” explicou Ramos.

Em caso de intervenção ocidental, uma guerra é pouco provável, “A China e Rússia provavelmente fariam declarações fortes do ponto de vista diplomático e bloqueios no conselho de segurança da ONU, mas intervenção militar direta é improvável”, disse Ramos. A China dificilmente escalaria o confronto com o governo Bolsonaro pois é o principal parceiro no comércio bilateral do Brasil, para Ramos, os países teriam muito a perder.

PROTESTOS PELOS OLHOS DOS MANIFESTANTES

Os manifestantes seguem usando as redes sociais para mostrar a situação na Venezuela, confira nos vídeos.

 

 

Venezuelano denúncia em rede social ataques de milícias protegidas pela GN contra o povo:

 

Outros manifestantes, ainda que em menor número, apoiam Maduro

 

 

 

Os nomes de alguns entrevistados foram alterados por motivos de segurança dos mesmos.

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