“existem mais de 1500 grutas na Chapada Diamantina”, diz o guia Souza

Boa parte das pessoas que visitam a Chapada Diamantina, logo se encantam com as belezas naturais, o verde das árvores e o barulho dos animais, mas, não imaginam o que mais se “esconde” na região. Para além das trilhas e poços de água azul, há também as grutas e lendas, as quais, pelo boca a boca e empenho científico, atravessam os séculos da história baiana.

Vista do Morro do Pai Inácio – Chapada Diamantina – BA

Dentre essas muitas histórias, uma se destaca: A lenda que deu o nome ao famoso Morro do Pai Inácio.

O guia Cleber Souza, que se auto-intitula como o tataraneto do Pai Inácio, apesar de não haver documentos que comprovem o parentesco, diz que, “a lenda se passa nos tempos do império, antes da Lei Áurea. Um escravo chamado Inácio, tinha como “dono” um fazendeiro muito poderoso, que vivia na região da atual Lençóis”, contou.

Segundo a lenda, o escravo e a filha do fazendeiro se conheceram, se apaixonaram e mantiveram o romance as escondidas, até que numa manhã quente de domingo, um dos capangas os viram escondidos e, correndo, em meio ao mato e pequenos animais selvagens, foi de encontro ao senhor do engenho, contar tudo o que presenciou em detalhes.

Enfurecido com o que acabara de saber, o fazendeiro ordenou que o fato fosse mantido em segredo. Para tal, o senhor do engenho mandou que Inácio fosse capturado, torturado e morto. Sua filha que a essa hora já estava em casa, escondida, ouviu toda a conversa e correu para avisar ao seu amado o risco que corria.

Com a promessa de que ficariam juntos um dia, Inácio fugiu para o morro “do Pai Inácio”, lá ficou meses escondido, mas numa noite fria, ascendeu uma fogueira e foi descoberto. Os capangas subiram o morro, o encurralou e o inesperado aconteceu, Inácio se jogou. Todos pensaram que ele havia morrido e foram contar o feito ao fazendeiro. Mas Inácio continuava vivo, ele caiu numa parte baixa do morro, o que enganou os capangas. A queda era insuficiente para matar.

Dias depois ele foi de encontro a sua amada. Os dois fugiram da fazenda na calada da noite. Mas quando amanhecia os dois se escondiam em algumas grutas e cavernas de difícil acesso. Até que, juntos, sairam da região.

A Gruta da Lapa Doce

De acordo com Souza, existem mais de 1500 grutas, que passam por debaixo de casas, estradas e em quase todos os pontos da Chapada. As grutas se estendem por quilômetros abaixo do solo, possuem acessos diferentes, que vão dar na mesma saída, mas com distâncias muito diferentes.

A Gruta da Lapa doce é exemplo, Souza informou que, “seguindo reto chegamos ao final da gruta em 100 metros, se formos por uma outra entrada, vamos percorrer 14km pra sair no mesmo lugar”, percorremos parte da caverna em completo silêncio e escuridão, quebrados apenas pelas luzes das lanternas, respirações ofegantes e as explicações do guia.

Parte do teto desmoronou, à cerca de 20 mil anos

Já na entrada da gruta, é possível perceber a desconexão com a civilização exterior, os gadgets de última geração ficam incomunicáveis, não há sinal das operadoras, do barulho dos carros, das pessoas. Os sons dos aparelhos de rádio e televisão, desaparecem, há ali, na Chapada Diamantina, apenas a natureza.

Poeira (invisível a olho nu) é captada pela lente da câmera, o local não oferece máscaras para os visitantes.

O acesso não é fácil, para entrar na Lapa Doce, é preciso andar por dentro da mata, numa área de preservação ambiental. Dentro da gruta é possível passar sobre um rio submerso a 30km de profundidade e sentir a umidade da terra sob os pés. Mas o tempo para ficar lá dentro é cronometrado, a permanência é de um minuto por “setor”. Sensores de calor coletam as informações e informam a uma central o local em que cada pessoa está.

Por conta disso, o guia Souza alertava, “a gente não pode demorar muito nos pontos de parada, se não eu sou advertido, os sensores servem para nos localizar”.

É possível ver o local onde o rio passa (à dir.), a terra mais escura está úmida.

Além da escuridão, rio submerso, poeira e o profundo silêncio, há vida nas profundezas da Lapa Doce. Um exemplar da segunda aranha mais venenosa do Brasil e altamente mortífera, caminhava por entre nossos pés, enquanto admirávamos as estalagmites e formações rochosas peculiares.

O pequeno ser fugia da luz das lanternas e ia em direção à sua “casa”. “Ela abre um buraco e com o material branco misturado com o barro, usa para se proteger da chuva e do sol. É uma aranha média, da família da tarântula” (sic). “O material dela é muito resistente e, hoje é usado para fabricar coletes à prova de balas”, informou o guia Souza.

Casulo da aranha encontrada na Lapa Doce

Segundo o site “Popular Mechanics”, para fazer o colete à prova de balas, cientistas extraem proteínas de seda de aranha e do leite de cabras geneticamente modificadas, em seguida, teceram essas proteínas em fibras artificiais de seda. Depois de enxertar as fibras de seda com a epiderme humana, a pele híbrida é capaz de repelir uma bala lenta disparada por um rifle calibre 22.

O material não era à prova de balas com velocidades de bala normais, mas os pesquisadores usaram apenas quatro camadas de material; coletes à prova de balas padrão feitos de Kevlar utilizam 33 camadas. Se aumentada, a armadura de seda pode ser três vezes mais forte que o Kevlar.

Souza afirma que as aranhas não estão sozinhas. Morcegos também habitam o interior da gruta da Lapa Doce, apesar da reportagem não ter encontrado nenhum exemplar, eram as 16h, “Talvez, a partir desse ponto vocês possam sentir um cheiro ruim, é das fezes dos morcegos”, alertou Souza.

A gruta também reserva, para o olhares mais apurados, estalagmites, que a depender da iluminação das lanternas, criam formas variadas de objetos e seres vivos. Lá encontramos rochas em forma de leão, coruja, dragão e até mesmo o presépio natalino. Veja as imagens:

Essas rochas formam o “presépio”.
Sombra na formação rochosa cria a imagem um dinossauro.
Segundo o guia, essa rocha tem a aparência de uma coruja.
Um guarda-chuva.
Um leão.
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