As principais potências econômicas e bélicas do cenário mundial se envolveram no que é conhecida por “guerra total” ou II Guerra Mundial, a qual se iniciou oficialmente no dia 1º de setembro de 1939 com a invasão das forças nazistas de Adolf Hitler na Polônia. “Os conflitos aconteceram no século XX, até 1945, com saldo de 50 milhões de mortos. Cerca de 100 milhões de pessoas se envolveram nos confrontos, incluindo o Brasil, através da Força Expedicionária Brasileira, Marinha e Aeronáutica”, informa Reginaldo Borges, historiador pós-graduado em história pela UNICAMP.

O Duce italiano Benito Mussolini e o Führer alemão Adolf Hitler – Eixo

O BRASIL NA GUERRA, A FEB E OS PRACINHAS

O início da aventura brasileira na guerra se deu no ano de 1942, no primeiro Governo de Getúlio Vargas. Apesar de num primeiro momento o Brasil manter uma postura de neutralidade diante dos confrontos que ocorriam na Europa, precisou mudar seu posicionamento diante dos ataques nazistas aos navios mercantes brasileiros. Vargas decidiu entrar ao lado de Roosevelt, presidente dos Estados Unidos na época, alocando o Brasil ao bloco dos Aliados, formado por França e Inglaterra, contra o Eixo, composto por Itália, Alemanha e Japão.

De acordo com João Barone, autor do livro “1942: O Brasil e sua guerra quase desconhecida”, a estrutura logística do corpo expedicionário brasileiro dependia exclusivamente do poderio americano, alguns militares brasileiros foram enviados para participar de cursos preparatórios em diversas escolas militares dos Estados Unidos.

A participação e efetividade das tropas brasileiras, num primeiro momento, era limitada a ceder bases de apoio logístico, aéreo e naval para os estadunidenses no nordeste brasileiro, Borges informou que, “além da Marinha brasileira fazer escoltas a embarcações por pedido dos Estados Unidos, inicialmente, não se envolveu ações militares no cenário europeu”. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), essas concessões tinham um caráter secreto, pois, em um primeiro momento o Brasil mantinha uma posição neutra em relação ao conflito.

Locais de onde saíram os pracinhas

A Força Expedicionária Brasileira (FEB) só chegou em solo europeu em julho de 1944, com cerca de 25 mil homens compondo a força terrestre e aproximadamente 400 da Força Aérea Brasileira, responsáveis por suporte aéreo.

Os soldados, que eram chamados de Pracinhas, saíram dos mais diversos estados brasileiros. Questionado pelo Ler Agora sobre a origem do termo, Borges disse que, “o apelido surgiu da expressão ‘sentar praça’, que significa se alistar nas Forças Armadas, o termo era atribuído aos soldados detentores da patente mais baixa”.

Mas, ao contrário do que diz o historiador Borges, o autor do livro “1942”, explica que o termo “Pracinhas” surgiu devido à baixa idade dos homens alistados na Força Expedicionária. Este contraponto em específico demonstra que não há uma precisão histórica acerca dos fatos entre os estudiosos da II Guerra.

Originalmente, o Ministério da Guerra, comandado pelo General Eurico Gaspar Dutra pretendia enviar cerca de 100 mil combatentes à Itália. Ao contrário do que muitos historiadores dizem, Barone afirma que o governo estadunidense não impôs a formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), mas que foi uma vontade do Governo brasileiro.

Oswaldo Aranha, Chanceler e homem de confiança do governo de Getúlio Vargas, teve papel chave nas articulações políticas entre os governos do Brasil e Estados Unidos, o encontro entre Roosevelt, presidente dos EUA e Vargas, em Natal, teve uma lista que visava o desenvolvimento do país, como consolidação da superioridade do Brasil sobre a América do Sul, relação mais estreita com os EUA, maior influência sobre Portugal, desenvolvimento militar e industrial, entre outros itens.

Aranha também foi o responsável pelo rompimento das relações entre o Eixo e Brasil. Segundo informações da FGV, o nome “Força Expedicionária Brasileira” (FEB) foi dado a divisão da infantaria organizada em 9 de agosto de 1943 sob o comando de João Batista Mascarenhas de Moraes, a designação FEB incorporava as Forças área, terrestre e marítima do Brasil que participaram da segunda guerra.

Barone define o recrutamento como sistema “anacrônico, defasado e desorganizado”, no qual os homens convocados eram expostos a humilhações e maus tratos por parte dos militares.

No processo de formação da FEB, os americanos alegavam não deter armas suficientes para disponibilizar ao Brasil. Com a impossibilidade de se convocar 100 mil homens, as três divisões iniciais foram reduzidas para apenas uma.

Após a formação e treinamento, de início as tropas lutaram na Itália, as missões postas a FEB visavam impedir que as forças fascistas de Mussolini chegassem até a França, “As tropas não podiam avançar, pois os franceses já enfrentavam ataques dos nazistas, as ações brasileiras visavam conter os avanços do Exército do Eixo no próprio território italiano”. “No Monte Prano foi onde as forças brasileiras efetivamente lutaram”, informa o historiador.

Segundo informações do Exército Brasileiro, em 2018 houve a restauração da Cruz do Monte Prano, 50 anos após sua instalação em homenagem às tropas brasileiras, na Itália. A Cruz tem o objetivo simbólico de relembrar a vitória e empenho da FEB sobre as tropas “nazifascistas”.

Ainda segundo o Exército, o Brasil atuou sob o comando do IV corpo de Exército do V Exército de Campanha dos Estados Unidos, “As primeiras ações militares da FEB ocorreram na região da Toscana, onde se deu a primeira conquista brasileira sobre as forças inimigas”.

Por conta da atuação sob o comando dos EUA, pouco tempo de treinamento das tropas e falta de experiência em combate, Borges afirma que se criou a percepção de que o Brasil foi motivo de chacota entre os exércitos participantes.

A FEB ERA DESPREPARADA?

Há uma divisão de opniões sobre essa questão, para alguns historiadores a FEB era alvo de zombarias por parte das tropas aliadas, mas por outro lado, “o exército brasileiro virou motivo de piada por questões internas, por serem despreparados e ultrapassados, 49% do contingente era civil e foram convocados de última hora, o Brasil não era sucateado, mas era atrasado e as tropas mal tiveram tempo para treinar”. “Alguns nem sabiam o que era o nazismo, apenas que tinham que ir para a guerra pois o Eixo atacou parte da marinha brasileira”, avalia Borges.

A pressa na formação das Forças Armadas que atuariam na Itália não se limitou ao contingente terrestre, um grupo de Aviação foi criado a canetada.

O GRUPO DE AVIAÇÃO – SENTA A PUA!

O decreto 6.123 de 18 de dezembro de 1943, assinado pelo então presidente da República, Getúlio Vargas, criou o primeiro grupo de Aviação de Caça do Brasil, composto por três esquadrilhas e sediado no Distrito Federal (DF). O efetivo foi composto a partir da transferência de militares de outras unidades da Força Aérea.

A origem do termo “Senta a Pua”, que era uma gíria para “mete bala” em bom português, surgiu durante os treinamentos deste novo grupo militar. Por ter sido criado a partir de decreto e as pressas, o Capitão Marcílio Gibson ordenou que a marchinha carnavalesca “A Jardineira” servisse como hino informal da divisão.

Dados disponibilizados pelo Arquivo Histórico da FEB, apontam que os pilotos brasileiros realizaram grandes feitos, foram 445 missões cumpridas, 6.144 horas de voo realizadas, destas, 5.465 foram em combate, a Força Aérea Brasileira lançou mais de quatro mil bombas sobre os inimigos, destruiu 1.304 transportes motorizados, 2 aviões, 19 embarcações, 250 carros tanques e vagões, e 144 construções ocupadas pelos inimigos.

Diante das inúmeras versões, dúvidas surgem sobre a idoneidade dos fatos, narrados entre os inúmeros historiadores e demais envolvidos que estudam a participação brasileira na II Guerra. Por conta disso, o Ler Agora entrevistou um veterano da Guerra Total.

O INÍCIO

Manoel Alves de Oliveira, ou, como gosta de ser chamado, Sr. Manoel, é um baiano que no auge dos seus 95 anos contou ao Ler Agora como se alistou no exército e acabou indo parar na Itália de Benito Mussolini para combater os nazistas e fascistas na II Guerra mundial. No entanto, sua história começa antes de ir para a guerra, quando ainda era garoto. Com seus 16 anos, o Sr. Manoel morava em Senhor do Bonfim e trabalhava num consultório dentário, lá escutava as conversas entre os dentistas e pacientes sobre a segunda guerra, “ah a Alemanha tomou um determinado lugar, está ganhando a guerra, aquela agonia danada”, relembra.

Após sete anos trabalhando como dentista, Sr. Manoel se mudou para a capital do estado da Bahia, Salvador, “e arrumei um emprego lá no Monte Serrat [Forte localizado no bairro da Ribeira], os patrões eram alemão, suíço e italiano, veja que situação, mas pagavam mil réis”, relata. Dentre os lampejos de memória, de fatos que ocorreram há mais de meio século, Sr. Manoel contou ao Ler Agora que não tinha documentos de identidade. Para resolver essa situação, ele precisou ir, de bonde, ao bairro da Calçada, “na Secretaria pública tirar os documentos, e deu tudo certo”. A documentação não só o registrou oficialmente como cidadão brasileiro, como o levou por um rumo que mudaria sua vida.

No caminho de volta, Sr. Manoel viu um centro de alistamento militar, indeciso se iria entrar ou não, resolveu entrar e se alistar, “com 15 dias eu vi no jornal chamando para ir à Itália. Na época eles estavam, ‘pegando’ gente de todas as partes do Brasil. Entramos num navio, saímos da Bahia e fomos para o Rio de Janeiro numa segunda-feira, e na sexta às 17h nós estávamos no Rio de Janeiro”. Da “cidade maravilhosa”, os pracinhas partiram rumo à São Paulo, cidade de Taubaté, “viajamos o dia inteiro, sem um centavo para comprar um pão, não tínhamos nada, a gente chegou às 23h”.

No entanto sua partida não foi abrupta, ele escondeu a convocação em segredo e pouco antes de partir, Sr. Manoel contou aos patrões que iria para a guerra; ao saberem, tentaram convence-lo a desistir, “se você for, vai morrer” disseram, “mas se eu morrer, não vai ser eu só, vai morrer muita gente” respondeu aos patrões, arrancando risos de todos, relembra. Durante a preparação para ir para a guerra, “foi necessário um mês para realizar todos os exames de saúde”.

Enquanto segurava sua bengala, com as mãos trêmulas por causa de um trauma de guerra, o Sr. Manoel relatou, que apesar dos percevejos “que chupava o sangue da gente todo”(sic), os dormitórios e o café oferecido no alojamento militar do estado de São Paulo “era tudo muito bom”(sic). Um dia após chegar em Taubaté, ele foi mandado para Pindamonhangaba, “depois embarcamos para a Itália”.

Continua…

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