Surto do novo coronavírus pode prejudicar a campanha de Biden

 Surto do novo coronavírus pode prejudicar a campanha de Biden
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Logo após a surpreendente vitória do ex vice-presidente Joe Biden sobre o senador Bernie Sander na super terça realizada na última semana, o Partido Democrata se prepara para a realização das suas prévias em seis estados nesta terça. Ao todo são 352 delegados em jogo: Dakota do Norte (14), Idaho (20), Michigan (125), Mississippi (36), Missouri (68) e Washington (89).

Os resultados de hoje podem ser determinantes para que Biden desponte o seu favoritismo ou para o início da virada do outsider Sanders. Segundo o site RealClearPolitics, o ex vice de Barack Obama é favorito em pelo menos 4 estados dos seis que estão em disputa, incluindo Michigan, estado com o maior número de delegados em disputa.

Mas o que as prévias democratas nos ensinaram até agora foi que reviravoltas inesperadas podem acontecer. Só basta lembrarmos que não eram poucos os que olhavam com ceticismo a candidatura de Bernie Sanders um pouco antes dele começar a liderar as prévias. Do mesmo modo, muitos não enxergavam uma vitória tão contundente de Joe Biden na última terça (pelo menos não uma do jeito que foi).

Mesmo assim, num momento que se mostra tão favorável a Biden e de grande dificuldade para Sanders, o que poderia possibilitar uma nova mudança na corrida democrata pela disputa presidencial? Uma resposta pouco usual até agora pode nos fornecer a chave da questão: o risco de uma pandemia do novo coronavírus nos EUA.

No entanto, será que uma possível contaminação em massa causada pelo novo coronavírus pode ter a mesma influência nas prévias democratas do mesmo modo que a baixa do preço dos barril de petróleo na Arábia Saudita pode ter de afetar diretamente a reeleição de Donald Trump em novembro? Ainda é cedo para afirmar, pelo menos a primeira hipótese. Mas caso uma epidemia se transforme realmente numa pandemia, as propostas e o histórico de ambos os candidatos democratas poderá contar bastante na escolha do eleitorado nas urnas.

O problema para Biden é que o seu adversário tem como uma das bases de sua campanha justamente a defesa de um programa de saúde universal e gratuito para todos, ao mesmo tempo que uma das plataformas de ataque da campanha de Sanders contra Biden é a sua falta de propostas para a crise da saúde que acomete as classes mais baixas de trabalhadores dos EUA.

Segundo dados levantados por Fábio Reis, na PFarma (Plataforma Farmacêutica), “o coronavírus pode levar famílias à falência nos EUA”. Ainda segundo Fábio, um dia de internação num hospital norte americano custaria aproximadamente US$ 4.293, enquanto que pelo menos metade das famílias americanas teriam em média apenas US$ 4.500 em sua conta corrente, segundo a consultora SmartAsse. Mesmo que o governo norte americano faça gratuitamente o exame para o diagnóstico do COVID-19, ele não arca com nenhum custo secundário do tratamento.

Um famoso caso relatado pelo New York Times foi a da menina Annabel, de apenas três anos, que precisou ficar em internação compulsória logo após apresentar sintomas do novo coronavírus após voltar da China. Logo após se comprovar que ela não tinha o COVID-19, sua família precisou arcar com o custo de precisou pagar ao todo US$ 6516 referente ao seu período de internação e do transporte com a ambulância.

Mesmo que, na maior parte das vezes, este valor seja cobrado quando se descobre com o COVID-19, se ele for diagnosticado precisará arcar com os custos da internação. Mas ainda há outro problema: segundo Alessandra Corrêa, em artigo escrito à BBC Brasil, milhões de cidadãos americanos não não possuem condições de escolher entre fazer o tratamento e continuar trabalhando, pois, como ela escreve: “Como não existe no país uma lei federal que obrigue empregadores a oferecer licença médica, muitos funcionários precisam escolher entre trabalhar doentes ou ficar sem salário — ou até mesmo perder o emprego.

Além disso, sem um sistema público de saúde, muitos não têm cobertura e evitam ir ao médico por medo dos altos custos.” Então mesmo que o teste seja oferecido gratuitamente, muitos norte americanos além de não poder arcar com os custos da internação, pode arriscar o seu emprego por causa de uma doença, seja ele mais ou menos grave.

Ady Barkan, influente advogado e ativista da saúde publicou no seu Twitter mais cedo: “Sabe o que pode ajudar a conter o novo coronavírus? 1) Medicare para todos. 2) Dias de internação pagas.” Já Billy Eichner, ator e produtos 4 vezes indicados para o Emmy que fez campanha para Elizabeth Warren antes dela desistir da corrida eleitoral, disse em seu Twitter: “Votei orgulhosamente em Elizabeth Warren, mas se eu tivesse que votar agora, votaria em Bernie Sanders.

Uma ameaça como o covid é mais uma razão pela qual precisamos que todos estejam cobertos”. Mesmo depois declarando apoio a Biden por conta dos direitos LGBTQ, essa inesperada declaração mostra como uma pandemia do novo coronavírus pode novamente mudar o jogo na corrida democrata pela presidência.

Ontem, em meio ao pânico de uma pandemia causada pelo novo coronavírus nos EUA, Joe Biden concedeu uma entrevista à MSNBC. Quando colocada a questão, o candidato afirmou que barraria um projeto de saúde universal e gratuita para todos mesmo que o projeto passasse pelo congresso e pelo senado.

O seu discurso teve uma repercussão tão negativa que até o The Daily Caller, jornal de extrema direita que apoia Donald Trump, postou o vídeo em suas redes sociais mostrando o perigo que Joe Biden representava à democracia norte americana. Se a repercussão desse discurso foi visto desta forma até mesmo pelos eleitores de Trump, como será que ele repercutiu nos próprios eleitores de Biden com uma emergência médica imanente?

Mas por que Joe Biden apresenta tanta resistência a projetos públicos de saúde que contemplem todos os cidadãos americanos a custo zero? Um levantamento feito por Lee Fang para o The Intercept em outubro do ano passado pode nos oferecer a chave para tamanha resistência.

Dois dos principais financiadores que injetam bastante dinheiro na campanha de Biden são Steve Schale, que possui como um dos seus principais clientes a Florida Hospital Association, uma grande associação que obtém seus lucros graças aos serviços que prestam aos planos privados de saúde dos EUA, assim como Bernard Schwartz, que por meio de sua fundação doou 1 milhão de dólares à Third Way, grupo centrista do Partido democrata apoiado por corporações que se opõe vigorosamente ao plano de saúde gratuito para todos defendido por Bernie Sanders.

Joe Biden não pode trair aqueles que financiam a sua campanha. Aprovar um programa de saúde pública que atendesse a todos faria com que ele perdesse apoio de doadores que são fiéis a sua campanha até agora. Enquanto isso, Sanders defende não só um plano de saúde gratuito, mas o perdão de 81 bilhões em dívidas médicas que foram produzidas por famílias com poucas condições financeiras.

O pior, pelo menos para os financiadores de Biden, é que Sanders diz que, caso eleito, pagará essas dívidas por meio de um imposto para empresas que pagam até 50 vezes mais aos seus executivos, ou seja, quem pagaria a conta seriam as empresas mais ricas do país.

Com o risco de uma pandemia do COVID-19 nos EUA, estes fatores podem ser determinantes para uma virada de Bernie Sanders nas prévias democratas. Mesmo que isto não esteja tão claro no momento, caso o novo coronavírus continue se espalhando e escancare cada vez mais algumas contradições inerentes ao serviço de saúde norte americano, assim como pautando as diferenças de propostas em relação a saúde dos dois candidatos, às primárias democratas podem sofrer outra mudança de cenário.

Enquanto podemos dizer que uma possível crise financeira, como a de 2008, pode desestabilizar o favoritismo de Donald Trump na eleição que virá no final do ano, por que também não poderíamos dizer que uma crise muito mais imanente não pode desestabilizar o favoritismo de Bidden na corrida democrata? Uma coisa é fato: caso o novo coronavírus se espalhe causando um pânico cada vez maior entre os norte americanos, mais chances Bernie Sanders tem de vencer.

Matheus Vieira

https://twitter.com/mattheusvieeira

É concluinte no curso de licenciatura/bacharelado de Filosofia na UFPB. É professor de História da Filosofia e colunista no Brasil247. Contribuiu para programas da CAPES/CNPQ como PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência), o PIVIC (Programa Institucional Voluntário de Iniciação Científica) e também participou da Residência Pedagógica (Programa de ações que integram a Política Nacional de Formação de Professores e induz o aperfeiçoamento do estágio curricular supervisionado nos cursos de licenciatura). Ultimamente tem concentrado sua pesquisa na bibliografia de Slavoj Zizek, onde produz textos jornalísticos e filosóficos sobre Política em nível Nacional e Internacional.

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